Não gosto.

Publicado 8 de fevereiro de 2011 por nesselugar

Agora eu sei por que me identifico tanto com aquele trecho da música do Legião Urbana: “Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto”.

Percebo que eu mudo constantemente, a cada dia, e ao mesmo tempo parece que eu sou sempre a mesma pessoa. Aquela mesma pessoa estressada, chata e irritante que não suporta pessoas. Sim, essas pessoas que eu desconheço me irritam. O mundo me irrita. Tudo me irrita.

Não gosto de pessoas que eu não conheço sorridentes. Eu sei, elas só querem ser simpáticas, mas pra quê mostrar os dentes? Aquele sorriso aberto, de quem acabou de ganhar na loteria… Um sorrisinho simples, normal já basta. Sem mostrar os dentes. E eu sei por que eu não gosto. É por que eu nunca vou conseguir retribuir, mesmo que eu tenha milhões de motivos para sorrir “mostrando os dentes”, eu nunca vou fazer isso com uma pessoa que eu não sei nem o nome. Não gosto, porque não vou retribuir e sei o quanto é chato não ser retribuída quando se tem as melhores intenções.

Aí as pessoas pensam: ‘nossa, que garota antipática, com cara de brava, cara de cu’. Pois é, como diz minha mãe: ‘você afasta as pessoas de você por causa dessa cara sua aí de brava’. Elas têm medo de mim, por que eu tenho cara de brava? Ou elas pensam que eu sou mal amada e me ignoram?

A segunda opção. Quem vai ter medo de uma garota com cara de cu?  É, ninguém. Algumas podem querer desafiar minha antipatia. Puxam um assunto qualquer comigo e se me interessar, parabéns! Você conseguiu ganhar o desafio. Já me torno uma pessoa completamente diferente, mas precisa ser um assunto muito bom e que realmente me interesse. É isso. Não gosto de pessoas que desconheço. Mas se eu puder saber seu nome, sua idade, sua profissão e você ter um assunto interessante, eu mudo meu conceito.

Não gosto de futebol, mas sou brasileira. Ah, falando em ser brasileira, como eu poderia me esquecer… eu não gosto de desistir e isso nem sempre é bom.

Eu sei que a maioria das pessoas falam que não podemos desistir, que devemos insistir e blá blá blá. Só que a minha persistência é demais.  Eu fico irritadíssima quando alguma coisa não dá certo. Não me conformo que eu apostei todas minhas fichas naquilo e isso foi em vão. Então eu penso: ‘eu vou fazer essa porra dar certo’. Parto logo para as atitudes, algumas pensadas, outras não. E adivinha? Aquilo continua não dando certo e a minha raiva só vai aumentando, porque eu sei que aquilo não é pra dar certo, mas eu to ali, perdendo meu tempo em algo que eu sei que não é pra ser.  Mas eu sou brasileira, e ser brasileira tem suas desvantagens.

Arranjo desculpas pra continuar insistindo num erro: ‘eu sinto que essa situação pode reverter, vamos esperar’. Espero, espero, espero. Finjo que esqueço e nada acontece, então eu vou atrás de novo e de novo. Porra, eu tenho que desistir disso. Já quebrei a cara muitas vezes e a idiota ainda ta aqui, insistindo. ‘E o que é que nos faz quebrar a cara de novo e de novo, sem jamais desistir?’

Não gosto de números. Eles só servem pra confundir ainda mais a minha cabeça. Conseqüentemente não gosto de matemática, física, química… aliás, não gosto de nada que é muito complicado e que eu tenha que pensar demais. Tenho preguiça de pensar. Quando eu sei que eu preciso pensar, quando é uma “necessidade” pensar, já me desanima. É necessário, eu vou pensar. Minha mente me diz: “não é preciso pensar em nada agora…” Ufa! Aí vem aqueles milhares de pensamentos indesejados ocupar espaço. Filhos da puta, eu não dei permissão pra vocês entrarem na minha cabeça! Só que quanto mais eu tento expulsá-los, mais eu me envolvo com eles… Passado, presente e futuro se misturam. Lembranças boas e ruins, memórias, enfim, eu não queria pensar nada disso agora. Mas estou pensando. Não gosto de pensar. Eu gosto de falar e fazer. Gosto de compartilhar e o pensamento é algo que eu não posso compartilhar.  Só posso compartilhar, quando eu transformo meus pensamentos em palavras, mas isso dá um trabalho desgraçado, assim como eu estou fazendo agora e isso cansa. Por isso não gosto de pensar.

Não gosto do meu cabelo, do meu nariz, do meu joelho. Não gosto de peixe, não gosto… Ah, não gosto de nada mesmo.  Sou aquela garota chata que não consegue agradar a todos, nem mesmo a mim. Mas se eu for falar do que eu gosto… e não, não sou insensível. Não mesmo.

(Francieli Gomes)

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3 comentários em “Não gosto.

  • Nossa conheço uma garota exatamente assim, até pensei que esse Blog fosse dela. No fundo são os mesmos problemas, todas achando que esse tipo de coisa só acontecem com elas mesmas. Incrivel ate as palavras são as mesmas. Vou passar esse link pra ela e dizer que outras pessoas sofrem do mesmo mal.

    Att, Giselle Ferreira

    • É verdade. Na maioria das vezes pensamos que só nós sentimos daquela maneira e achamos que ninguém pode nos entender. Mas não sabemos que várias outras pessoas estão passando pela mesma situação…e isso é até confortante, de alguma maneira. Obrigada 😉
      Beijos

  • Você não é (ou nunca foi,não sei!!!) uma pessoa desagrável mocinha.Também não gosto do meu nariz e nem de peixe.Minha mãe não me dizia que eu afastava as pessoas de mim por causa da minha cara de b*sta,eu que tive que perceber isso,e estou tentand melhorar graças a uma anjinha sem auréola chamada Francieli….ótimo texto,parabéns!!!!!

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